Só | Guilherme Callegari 
OMA Galeria
São Bernardo - SP
Set - Out / 2015
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ABC
Pintar é o ato de arrastar tinta sobre uma superfície, pode ser feito com as mãos, com o pincel ou qualquer outro objeto. Esse gesto simples é dotado de poder e de acordo com o manuseio pode levar as pessoas a sensacões muito particulares e que palavras ou mesmo minha escrita jamais poderia dar conta.
Desde 2011 quando Guilherme Callegari começou a trabalhar comigo entrei em contato com suas primeiras pinturas. Naquele momento Guilherme desenvolvia pinturas com elementos geométricos e coloridos. Com formação na área do design gráfico, essas pinturas mais duras e extremamente gráficas faziam sentido com seu repertório até então, mas a curiosidade o levou a tomar contato com os pintores modernos, como Cy Twombly por exemplo. Esse fato abriu um outro momento, que acredito eu ter uma grande relação com os trabalhos que vemos nesta exposição hoje.
As pinturas de Callegari acontecem literalmente no trabalho diário e excessivo,
na relação com a tinta e com o suporte e não em um projetor, computador ou foto como referência. Guilherme pinta como um expressionista abstrato, mas utiliza referências e elementos gráficos não ficando somente na expressão da pincelada.
As cores são de natureza industrial e plástica, não é uma palheta de paisagens ou mesmo de um pintor de carne. Sua palheta é de uma impressora professional ou mesmo de um birô de silk screen. Isso dá ao trabalho uma característica urbana. Sua pintura mescla referências de muros abandonados que Callegari visualiza e convive no trajeto de seus deslocamentos a partir do ABC paulista.
Artista norte americano dos anos 50, Cy Towmbly participa de movimentos artísticos como o expressionismo abstrato, a pop art e o minimalismo. Gestos caligráficos foram importantes referencias para Cy Towmbly e posso ver esse mesmo interesse nas pinturas de Callegari, que, diferentemente das ruínas das culturas antigas que Towmbly se inspirou, tem as ruínas contemporâneas de muros e fábricas abandonadas da grande São Paulo como interesse.
Como um diagramador de elementos pictóricos, trabalha por camadas de adição. Mesmo quando elimina um elemento é com a próxima camada que ele resolve e não com sua remoção. Isso se dá porque ele trabalha, na maioria das vezes, com tintas a base acrílica que tem a secagem rápida como característica.
As pinturas que podemos ver nessa exposição são como inscrições. Sem necessariamente possuir um caráter narrativo, suas letras são elementos compositivos, como a cruz e o X, encontradas em muitas pinturas.
A pintura de Callegari aceita e reforça o plano, não existe simulação de tridimensionalidade. Os elementos do trabalho tem as características de rastro e registro, algo como a característica primeira de como se deposita tinta em um plano. Guilherme faz isso porque lhe é natural e talvez seja a maneira que saiba fazer e por essa crueza a força do trabalho é percebida. Sua pintura não está na mente nem no estômago, ela vem da relação que acontece na tela, é esse o lugar que importa, já que é nele e para ele que sua pintura presta serviço. Sua pintura não é um comentário sobre algo, ou uma pintura narrativa de um problema, ela é o problema.
Destrutivos e gráficos, os elementos do trabalho de Guilherme se estabelecem no limiar da negação das diagramações limpas e bem estruturadas do universo do design. Cores cítricas e sujas se intercalam em layers que assumem e potencializam o plano trazendo a tona todo o processo.
O uso da tinta acrílica traz a ideia de impressão, porém todos elementos são realizados com pincel pelo artista. Guilherme trabalha como uma máquina, mas suas pinturas tem características e especificidades de obra prima, no sentido de obra única. As passagens são delimitadas como em um desenho, trazendo mais uma informação gráfica. Mesmo quando o artista mistura seus elementos, a sempre uma borda bem definida que os diferencia. Tudo é sólido e plano. O encontro das cores acontece na maioria das vezes por intersecção e não por fusão. Isso nos faz lembrar dos pantones gerados pelo photoshop ou pelas lojas de tinta de parede.
Guilherme já possui um “como”.
Como o pintor realiza seu trabalho, isso está relacionado a um jeito, uma específica maneira de fazer arte. Sua fatura é densa sem ser espessa, a superfície mesmo trabalhada a partir de muitas camadas, não apresenta um excesso matérico, tem uma elegancia nesse caos.
O momento do fazer é sempre o que a pintura de Callegari tem. Não existe passado nem futuro, nem desenho preparatório, nem comentário. Sempre e a todo instante o que temos é o resultado do que a ação produziu, nunca a tentativa ou a procura por algo.
Talvez pintar seja ainda hoje uma forma de estar em comunicação consigo mesmo. Sendo único somos universais.
Rodolpho Parigi | Setembro de 2015
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errata
Indívidual
Galeria Arterix
São Paulo - SP
Set - Out / 2014



ERRATA | Guilherme Callegari 
Galeria Sancovsky
São Paulo - SP
Set - Out / 2014

A palavra errata tem em sua origem de construção como vocábulo o latim de mesma grafia “errata”. Porém seu significado, e consequentemente seu uso, caminha em sentido contrário – e ao mesmo tempo próximo – de sua definição na língua portuguesa. Em latim errata significa “coisas erradas”, sendo que em português, errata está ligada a correção, mais precisamente, segundo a definição do dicionário Larousse Cultural, a “retificação de erros tipográficos em uma obra impressa”.

A dualidade presente entre o significado da palavra em português e sua origem em latim, dualidade essa que vincula correção ao erro, está presente na obra de Guilherme Callegari. Suas pinturas se constituem de diversas camadas, que se sobrepõem sem se cobrir completamente, em um jogo de erro e correção compositiva. São elementos oriundos do mundo gráfico, como tipografia, logotipia e caligrafia, todos esvaziados de seu significado semântico – ou emblemático no caso dos logotipos – usados pelo artista como forma construtiva, e para criar as áreas de cor na composição dos trabalhos.

São esses os artifícios que o Callegari lança mão na realização de suas pinturas. Não existe regra ou material preciso, o trabalho se dá no acumulo e sobreposição desses diferentes elementos e materiais, como carvão, acrílica, esmalte sintético, giz de cera, resina, entre outros tantos.

Todos esses elementos coexistem na pintura de Guilherme, e vão sendo inseridos por ele ao longo do tempo, uns sobre os outros. Quando algo foge do controle de composição, o artista insere marcações oriundas também desse universo gráfico, como guias, grids ou círculos. Uma constante no trabalho nesse sentido, mesmo que aparentemente não esteja visível, é a marca de um X, usada pelo artista como uma maneira de anular o trabalho realizado em uma área, tornando simbolicamente aquela área “sem efeito”, para recomeçar o trabalho com o desafio de nunca apaga-lo completamente.

Nas pinturas de Callegari não há erro, tampouco há correção a ser feita. O que existe é a busca por uma solução de composição precisa, sem nunca apagar completamente o que foi feito, nunca zerar o que foi realizado, mesmo que aquilo aparentemente não faça mais sentido no caminho que a pintura tomou. É anular com um X o que não tem mais efeito, porque perdeu sentido no jogo compositivo do artista, fazendo desta errata parte da solução “correta” de sua pintura.

Douglas de Freitas | setembro de 2014
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